Os Filhos da América Latina, Londrina — 1972

 

Esta performance aconteceu nas ruas centrais da cidade de Londrina — Paraná — em 1972, com os atores do Grupum — Teatro Educação, a partir de minhas atividades na Universidade Estadual de Londrina. Porém, a considero parte da criação do Gruparte Teatro Educação de São Paulo. É um "espetáculo" de Agitprop (Agitação e Propaganda) inspirado no movimento de origem alemã que aconteceu antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Vivíamos a ditadura Médici e nos cabia denunciar o estado policial terrorista brasileiro.

 

Os atores, em grupo, com uma lata de tinta vermelha nas mãos, convidavam os transeuntes a mergulhar as mãos na tinta ou, quando recusavam, mergulhavam eles mesmos as suas próprias no líquido e apertavam as mãos num cumprimento macabro. Ao redor desses, outros atores com vendas nos olhos ou na boca improvisavam jogos dramáticos.

 

O ponto de atração para este trabalho foram as crianças soltas nas ruas que se reuniram em grupo estimulados pelos atores, tornando-se assim focos de atenção para a população. Com elas, os atores cantaram e desenharam, mostrando o valor de expressar-se, mas, a cada grupo de adultos que se formava, o jogo mudava para algo repressivo, contido, etc.

 

Este signo das mãos vermelhas permaneceria em minha criação, reaparecendo na Aldeia Antropomágica número 2 com a qual participei da Bienal Internacional de São Paulo. Uma obra multilinguagem (como a primeira) que nascia na porta do primeiro andar: pés vermelhos marcavam o caminho que levava à obra no terceiro andar e morriam no centro do espaço, onde havia no alto o símbolo da Bandeira Nacional e, embaixo, um grande saco de plástico onde as pessoas que entravam se moviam, causando "estranheza" a quem olhava de fora. No espaço bonecos de aniagem — os homens e mulheres dos campos de café — esquecidos lá — qualquer coisa como qualquer coisa eram todos, sem direitos públicos, aterrorizados. Para ver a obra em toda a sua intenção, seria necessário explicitar alguns detalhes, não no sentido de torná-la mais fácil, mas fazê-la mais completa sem deixar cair seu vulto antropomágico. Não me foi possível dada a péssima era que foi realizada a concessão da Universidade Estadual de Londrina, que logo após me dispensaria de seus quadros, sem explicação oficial; ou melhor, com uma explicação burocrática administrativa de fim de contrato, sendo que uma semana antes a polícia política havia vistoriado meus armários na CAC-UEL e havia se infiltrado no meio do povo em um espetáculo de rua que o Teatro Escola Pindoramà (que dirigia) promoveu no final do ano como comemoração.

 

fotos | Os filhos da América Latina

 

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© 2019, Joana Lopes.