Primeira Aldeia Antropomágica, Londrina — 1972

 

Uma experiência de multilinguagem artística: música, artes plásticas, teatro e arte do movimento.

O espaço que escolhi para esta performance foi o de uma agência bancária, que se transferiu para outro lugar deixando um salão e subsolo abandonados no centro da cidade. Lá, montei o espaço plástico e conceitual para viver independentemente da atuação dos atores. 0 público, mais que público era o ator da cena, ao passar por um espaço de provocação para novos comportamentos. O tema que fundamenta a performance é o labirinto e a fragmentação corporal, e o espaço em si mesmo provocava o contrário na medida em que oferecia outras oportunidades extracotidianas.

 

Segunda Aldeia Antropomágica, XII Bienal Internacional de São Paulo — 1973

 

Dando sequência à primeira, reorganizei a proposta tendo como "partner" Di de Souza — músico e artista plástico do Grupum de Londrina.

A segunda Aldeia Antropomágica coloca um ponto no centro de minha criação, a partir do qual se desenvolve um circuito que, vinte anos depois, se concretiza na Coreodramaturgia. O princípio, do ponto de vista da filosofia estética, se formaliza no ator como antropomágico: mágico, aquele que suscita uma outra realidade dentro da realidade, quebrada nas suas relações lógicas de causa e efeito. A partir daí a visão extracotidiana da arte começa a tomar corpo (persistiria como fundo por muito tempo), colocando em questão o didático político, mas também a destruição do espaço artístico singular. No fundo, a pergunta era mais simples: para que faço arte e não outra coisa qualquer? A resposta demanda, até hoje, um constante perguntar.

A segunda Aldeia Antropomágica foi construída — em 80 metros quadrados aproximadamente — por mim, com o auxílio de um operário para a estrutura pesada, no terceiro andar da Bienal de São Paulo que, naquele ano, escolheu as obras através de seleções regionais. Uma obra multilinguagem (como a primeira) que nascia na porta do primeiro andar: pés vermelhos marcavam o caminho que levava à obra ao terceiro andar e morriam no centro do espaço onde havia, no alto, o símbolo da Bandeira Nacional e, embaixo, um grande saco plástico onde as pessoas que entravam se moviam, causando "estranheza" a quem olhava de fora. No espaço, bonecos de aniagem — os homens e mulheres dos campos de café — esquecidos lá — qualquer coisa como qualquer coisa eram todos, sem direitos públicos, aterrorizados. Para ver a obra em toda a sua intenção, seria necessário explicitar alguns detalhes, não no sentido de torná-la mais fácil mas sim de fazê-la mais completa sem deixar cair seu vulto antropomágico. Não me foi possível, dada a péssima era em que foi realizada a concessão da Universidade Estadual de Londrina, que logo após me dispensaria de seus quadros, sem explicação oficial; ou melhor, com uma explicação burocrática administrativa de fim de contrato, sendo que uma semana antes a polícia política havia vistoriado meus armários na CAC-UEL e havia se infiltrado no meio do povo em um espetáculo de rua que o Teatro Escola Pindoramà (que eu dirigia) promoveu no final do ano como comemoração.

 

fotos | Aldeia antropomágica

 

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© 2019, Joana Lopes.